A Geração Que Trocou a Gnose por Letras Góticas

Cruzar os portões do Templo, despojar-se dos metais e assentar-se na penumbra da Coluna do Norte deveria ser o ato mais violento e transformador da existência de um homem. Um compromisso radical com o desbaste da Pedra Bruta, com a busca implacável pela Verdade e com a edificação de uma sociedade alinhada pela Geometria Divina. Afinal, foi por esse labor interior e civil que a Maçonaria combateu tiranias, derrubou impérios e moldou as estruturas do Ocidente ao longo dos últimos trezentos anos.
Mas olhe ao seu redor hoje à noite, meu Irmão. Ajuste o seu colar bordado, ajeite o seu avental acetinado e encare o espelho de bronze do Ofício. O que a nossa geração fez com a herança de Hiram Abiff?
Nós a transformamos em um balcão de negócios. Em um mercado de vaidades frias, burocráticas e vazias. A Maçonaria moderna padece de uma esquizofrenia iniciática galopante: os obreiros consomem graus elevados como quem troca de camisa em um guarda-roupa social. A investigação documental, o estudo simbólico profundo, a ascese moral e o verdadeiro suor no canteiro de obras da humanidade foram sumariamente trocados pelo brilho fugaz dos metais profanos e por pedaços de papel fotográfico impressos com imponentes letras góticas. Ser Maçom na nossa geração deixou de ser um distintivo de vanguarda intelectual e transformou-se em um motivo de vergonha nacional. Tornamo-nos a geração mais abobalhada, inerte e domesticada de toda a história do Ofício.
Para compreender como chegamos a este estado de letargia, o verdadeiro mestre precisa assumir a postura incômoda do Anti-Herói e passar as instituições pelo bisturi da crítica histórica. O sintoma mais nítido da nossa sede infantil por novidades e títulos ocos é o recente resgate e reanimação oficial do Apostolado da Nobre Ordem dos Cavaleiros de Santa Cruz, ocorrido no GOB sob o pretexto ufanista do bicentenário da Independência.
O Maçom Raso, deslumbrado, aplaudiu. Correu para os passos perdidos para descobrir como conseguir o convite para ingressar na nova e seleta casta. Fascinou-se com os novos cargos pomposos — "Arcontes", "Marechais", "Vice-Cônsules" — e com as novas comendas reluzentes.
O que o intelecto anestesiado desses irmãos ignora é a ironia trágica da própria história: o Apostolado original de 1822 foi uma sociedade de exceção criada por José Bonifácio com um único objetivo pragmático: perseguir os maçons liberais-radicais e fechar a Maçonaria Regular da época (o Grande Oriente Brasiliano). Bonifácio utilizou uma estrutura para-maçônica para prender, exilar e silenciar Gonçalves Ledo e seus operários democratas, sufocando o debate sobre a descentralização do poder no berço do Império.
A Maçonaria moderna, em sua ignorância enciclopédica, desenterrou a ferramenta que quase a degolou no berço. E por quê? Porque a liderança burocrática precisa alimentar o mercado de egos. Precisa inventar novos degraus e novos panos coloridos para manter entretidos os homens rasos que já cansaram do tédio de suas próprias Lojas Simbólicas. O novo Apostolado não trouxe de volta a gnose; ressuscitou o vírus da intriga, da fofoca de bastidores e da disputa rasteira por influência palaciana. É o fetiche da farda usado para esconder a nudez do espírito.
Esse mesmo Maçom moderno — que coleciona diplomas de Grau 33 na parede e se julga moralmente superior a qualquer profano — revela sua falência ética quando o debate migra para o período mais nebuloso da história política recente do Brasil: a ditadura militar e o advento do Ato Institucional nº 5 (AI-5) em 1968.
Não é incomum ouvir nos templos latinos, entre um gole de uísque caro e uma baforada de charuto nos banquetes, defesas veladas ou explícitas dos crimes cometidos pelo arbítrio estatal daquela época. Justificam o恐怖 institucional sob o manto confortável do "mal menor" ou da "defesa da ordem".
Aqui, o Prumo de Amós cai como uma marreta sobre a hipocrisia do altar. O AI-5 foi a antítese absoluta de tudo o que a Maçonaria Universal jura defender. Foi o Maço da ignorância cega esmagando a inteligência nacional. O ato suspendeu o habeas corpus, cassou mandatos de parlamentares legítimos, amordaçou a imprensa através da censura prévia, fechou as universidades e institucionalizou a tortura e o assassinato como métodos de gestão de Estado.
Estruturalmente, o AI-5 foi para os generais exatamente o que o Apostolado foi para José Bonifácio: um dispositivo de exceção violento criado por quem já detinha o poder para calar a dissidência e aniquilar a pluralidade do pensamento.
Como pode um homem que ajoelhou no Altar dos Juramentos, diante do Livro da Lei, e prometeu defender a Liberdade Absoluta de Consciência e combater os tiranos, estufar o peito para defender os crimes do AI-5? A resposta é simples e dolorosa: ele pode porque ele é apenas um profano com avental. Ele decorou os sinais, aprendeu o aperto de mão mecânico, mas sua mente continua presa nas masmorras do preconceito, do autoritarismo e da barbárie profana. Ele tem o título de Mestre, mas opera com a psicologia covarde dos assassinos de Hiram.
A Maçonaria brasileira converteu-se em um grande simulacro. Desvinculada de qualquer propósito cívico real, humanitário ou transformador, a instituição assiste inerte ao esgarçamento moral da sociedade enquanto suas lideranças digladiam-se em tribunais de potências por palmos de território institucional e nacos de poder burocrático. Reduzimos a egrégora a um clube de networking burguês de alto custo. Vendemos a ilusão de que o pagamento pontual das capitações e a compra de rituais novos conferem evolução espiritual por osmose simbiótica.
A verdade desconcertante que o Maçom Raso se recusa a enxergar é que a Maçonaria não é simbiótica. Ela não te transforma em um homem justo ou honesto pelo simples fato de ostentares uma fita no pescoço. Ela é, irrevogavelmente, um estado de escolha:
Se você escolhe o termo fantasma BOOZ dos manuais mal traduzidos, você escolhe a conveniência da casca vazia, a obediência cega aos burocratas e o aplauso dos homens rasos.
Se você escolhe o Prumo de Amós e o caráter real de BOAZ, você escolhe o desconforto da verdade, o desbaste doloroso do ego na eira do mundo e o peso de um pacto que prefere o ostracismo à conivência com o erro.
Apaguem as luzes do Oriente. Guardem os vossos malhetes de escritório. Enquanto as nossas Oficinas forem governadas pelo medo de debater a realidade, pelo deslumbramento com comendas do neo-Apostolado e pela cumplicidade silenciosa com os fantasmas do autoritarismo, nós continuaremos a ser o que somos hoje: uma assembleia de homens abobalhados que guardam o túmulo de Hiram, mas que, na prática cotidiana das vossas vidas profanas, continuam a desferir contra ele os golpes fatais da Ignorância, do Fanatismo e da Ambição.
A acácia está murchando sobre o nosso canteiro de obras. E a culpa não é dos profanos do lado de fora. É nossa. RBP - Irmão Pedra Bruta
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